A aliança de Aline Serrão com a emissora de TV de Jaime Nunes para atacar o prefeito Dalua deixa claro, o acordo espúrio feito na eleição de 2022
Por Richard Duarte Costa
A deputada estadual Alliny Serrão (União), presidente da Assembleia Legislativa do Amapá (Alap), implodiu a calmaria dos bastidores políticos ao anunciar sua pré-candidatura ao Senado pelo União Brasil para as eleições gerais deste ano. O movimento disparou uma crise interna na legenda pelo fato de a parlamentar caminhar em direções diametralmente opostas às do seu próprio grupo. Ao imprimir passos controversos em suas pretensões majoritárias, Serrão provocou profundas fraturas em sua base e tensionou a sustentação do governador Clécio Luís e do prefeito interino de Macapá, Pedro da Lua — ambos seus correligionários —, selando uma aliança com adversários históricos do grupo comandado pelo senador Davi Alcolumbre (União), presidente do Congresso Nacional.
Essa guinada imprevisível em direção ao bloco de oposição, hoje liderado pelos empresários Jaime Nunes e Adiomar Veronese através da TV Equinócio, escancara o pragmatismo que agora dita os passos da presidente da Alap. Ao abrir mão do alinhamento com o Palácio do Setentrião e com a prefeitura da capital, Alliny Serrão isola-se de antigos aliados enquanto tenta legitimar uma liderança que já carregava o peso de desgastes acumulados. Interlocutores relembram que, no pleito de 2022, quando atuou como coordenadora da campanha de Clécio Luís ao governo, a deputada não conseguiu converter o favoritismo em votos no Vale do Jari, reduto onde afirmava ter domínio político. Na ocasião, Jaime Nunes, que também disputava o governo do Estado, obteve uma vitória expressiva na região, fragilizando a posição da parlamentar como articuladora.
O distanciamento entre o discurso e a prática partidária ganhou contornos mais nítidos nas últimas semanas, quando Alliny Serrão formalizou a aproximação com a emissora de Nunes e Veronese. Em visita recente à sede da emissora, em Macapá, a presidente da Alap foi recebida como uma "velha amiga" nos bastidores e demonstrou forte sintonia com a linha editorial da emissora durante entrevista conduzida pelo apresentador Luiz Eduardo. A mudança de postura acendeu o sinal de alerta no governo e no Palácio Laurindo Banha, sede do Executivo municipal, que enxergaram a aliança como uma infidelidade velada. "A política exige coerência e compromisso com o grupo que viabilizou os mandatos", criticou, sob reserva, um parlamentar da base governista.
Dessa forma, o desenho político que pavimentava a reeleição de Clécio Luís na região do Vale do Jari sofreu uma reviravolta drástica. Nos bastidores, o Palácio do Setentrião dava como certa a indicação da deputada estadual Alliny Serrão para que voltasse a coordenar a campanha majoritária na região — plano que a própria presidente da Alap vinha chancelando publicamente. No entanto, ao quebrar um acordo tácito fechado em conversas reservadas com o chefe do Executivo, a parlamentar surpreendeu o arco de alianças ao anunciar sua própria pré-candidatura ao Senado, colocando o projeto de reeleição do governador em xeque e travando articulações que vinham sendo costuradas há seis meses com outras lideranças políticas no Estado.
Ao antecipar suas pretensões de forma abrupta, Alliny provocou um efeito cascata que acabou por constranger e afastar outras forças políticas que se alinhavam ao governo. O movimento travou, por exemplo, o desembarque formal do deputado federal Acácio Favacho na base aliada. Favacho planejava estruturar o apoio integral do MDB à reeleição de Clécio Luís, trazendo musculatura partidária e tempo de TV, mas recuou diante da instabilidade instalada no núcleo governista pela presidente do Legislativo.
Para interlocutores do governo, a decisão precoce da deputada expôs um isolamento motivado por interesses puramente individualistas e familiares. Críticos apontam que Alliny Serrão priorizou um projeto paroquial voltado a abrigar seu grupo político — composto pelo marido, Márcio Serrão, e demais apaniguados —, preterindo o bloco que garantiu sua sustentação política e financeira na Alap. A guinada foi classificada por aliados históricos como uma "ambição desmedida" e um erro de cálculo estratégico, uma vez que sua permanência na coordenação regional e a disputa pela reeleição à Assembleia Legislativa lhe confeririam maior densidade eleitoral e estabilidade institucional do que uma eventual aventura rumo ao Congresso Nacional.
As rachaduras provocadas por essas decisões atabalhoadas estendem-se à gestão da capital. Pedro da Lua nunca recebeu uma visita institucional ou de cortesia da correligionária desde que assumiu a Prefeitura de Macapá. O isolamento político transformou-se em embate público após o apresentador Luiz Eduardo utilizar o espaço na TV Equinócio para acusar o prefeito em exercício de ter expulsado a deputada de uma reunião de trabalho.
Pedro da Lua rebateu as acusações de forma categórica, apontando uma tentativa de manipulação midiática para desestabilizar sua gestão. "Nego que tenha emitido qualquer ordem para impedir o acesso ou a permanência da deputada em qualquer espaço que seja", afirmou o prefeito interino. Para ele, o episódio é um factoide construído para blindar a oposição e comprometer futuras alianças. "Isso é uma articulação flagrante feita pelos dirigentes da emissora para prejudicar a nossa gestão, tentando nos diminuir diante da opinião pública", completou Da Lua.
De acordo com governistas, a estratégia da emissora e do grupo de Alliny Serrão é tentar criar uma cortina de fumaça para desviar o foco da crise que atinge o ex-prefeito Antônio Furlan (PSD), investigado pela Polícia Federal por suspeita de malversação e peculato. Furlan foi afastado do cargo por determinação do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), em decorrência de investigações sobre um suposto esquema de corrupção em licitações envolvendo recursos públicos destinados à construção do Hospital Municipal de Macapá.
A articulação de Alliny Serrão com as forças que orbitam o prefeito afastado e alvo de graves suspeitas aprofunda o racha no União Brasil, dividindo o partido entre os que defendem a fidelidade a Clécio Luís e aqueles que priorizam o projeto pessoal da deputada. Nos bastidores da Assembleia Legislativa, o clima é de cautela, enquanto as lideranças partidárias avaliam o tamanho do impacto que a pré-candidatura trará para a governabilidade político-administrativa no Amapá.



