Furlan pede votos para candidato a deputado federal envolvido em corrupção por desvio de recursos da obra da BR-156, segundo a PF
É a chamada "turma" que está respondendo por corrupção
Por Redação
O candidato ao governo do Amapá pelo PSD, ex-prefeito de Macapá, Antônio Furlan, afastado do cargo por ordem do Supremo Tribunal Federal, reafirmou seu apoio explícito à reeleição do deputado federal Vinícius Gurgel (PL), desenhando uma aliança eleitoral fundamentada no instinto mais primário da sobrevivência política amapaense. A dobradinha, costurada em palanques improvisados e vídeos de redes sociais une duas trajetórias que colidiram frontalmente com as páginas policiais: ambos dividem o dissabor de figurar sob a mira cerrada da Polícia Federal por suspeitas de desvio de recursos públicos e fraudes em licitações.
Furlan, que deixou o comando da capital amapaense em março deste ano por determinação expressa do ministro Flávio Dino, tenta converter seu histórico policial em palanque estadual. Ao lado dele, Gurgel não destoa do figurino; pelo contrário, personifica o pragmatismo parlamentar de quem há anos navega pelas correntes turvas de Brasília e pelas investigações federais que apontam supostos esquemas de fraudes em licitações e verbas carimbadas.
Observar a união da dupla é quase um exercício de dramaturgia política. Há no gesto uma cumplicidade implícita, um afago mútuo entre dois homens públicos que conhecem o eco pesado das batidas matinais de agentes com coletes escuros e mandados de busca debaixo do braço. Ao pedir voto para Vinícius, Furlan parece buscar em Gurgel não um diferencial programático ou uma visão luminosa para o Amapá, mas o espelho de quem sabe exatamente como operar quando a linha ética que separa a gestão do patrimônio público e o interesse pessoal fica cada vez mais turva.
Gurgel, conhecido pelos malabarismos regimentais e pelas alianças de conveniência que desafiam qualquer ideologia, acolhe a benção de Furlan como se o passado recente do ex-prefeito fosse mero detalhe de rodapé. Afinal, para quem já construiu carreira driblando manchetes desconfortáveis sobre supostas irregularidades em licitações, somar forças com um líder municipal destituído por ordem da mais alta corte do país não é um fardo, mas uma afinidade eletiva. O discurso inflamado de palanque busca camuflar as sombras dos inquéritos, transformando denúncias graves em suposta perseguição e retórica de campanha.
Nas esquinas e praças de Macapá, contudo, a cena soa agridoce para quem acompanha a crônica cotidiana. O eleitor assiste a um enredo conhecido, onde o compadrio se sobrepõe a qualquer tentativa de renovação. O aperto de mãos entre Furlan e Gurgel não promete pontes, saúde ou redenção econômica; entrega, com rigor cínico, a radiografia de um pacto entre pares que encontram na solidariedade das urnas o melhor escudo contra os relatórios de inteligência financeira e os despachos judiciais. Quando os holofotes se apagam, o que sobra é a constatação de que, no tabuleiro do Amapá, a política continua sendo uma dança de salão em que os passos mais sincronizados costumam ser dados por aqueles que compartilham as mesmas pendências com a lei.

