Macapá desmascara Nikolas Ferreira ao usar evento evangélico para fazer discurso de ódio contra lideranças locais
Por Redação
O que deveria ser um momento de louvor e comunhão espiritual transformou-se em palco de acusações e desgaste político no último final de semana, em Macapá (AP), após fiéis e lideranças religiosas denunciarem que o evento evangélico "Reativa Amapá" teria sido utilizado como fachada para propaganda político-partidária de aliados do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e do candidato à Presidente da República, Flávio Bolsonaro (PL). A celebração, que inicialmente estava prevista para ocorrer em outro ponto tradicional da capital amapaense, na praça Jaci Barata, teve sua locação alterada de última hora sob a justificativa de logística, atraindo caravanas de diversas congregações que relatam terem sido induzidas ao erro. A situação gerou revolta entre pastores locais, que apontam violação da laicidade e uso indevido da fé pública para fins eleitorais, alertando juristas quanto a possíveis crimes eleitorais de abuso de poder econômico e político, e abertura de discussões sobre os limites legais entre o púlpito e a urna.
A mudança repentina de local e o tom adotado no palanque surpreenderam quem compareceu em busca de conforto espiritual. De acordo com relatos colhidos junto a participantes e lideranças religiosas que preferiram não ter os nomes revelados por temor de retaliações, ônibus inteiros foram mobilizados sob a promessa de um grande ato de avivamento e união das igrejas locais. No entanto, ao chegarem ao novo espaço, os fiéis se depararam com discursos de cunho estritamente político, exaltação a figuras da extrema direita nacional e ataques diretos a instituições democráticas, incluindo o Supremo Tribunal Federal (STF). "A gente foi levado acreditando que era exclusivamente para louvar a Deus. Quando vimos, estava virando um comício de campanha antecipada, usando o nome de Deus para conseguir votos", desabafa um pastor da zona norte de Macapá, visivelmente constrangido com o episódio.
A mistura entre religião e política é uma questão delicada no Brasil e encontra barreiras explícitas na legislação eleitoral. A Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997) proíbe a realização de propaganda política em bens de uso público e em templos religiosos, além de coibir práticas que configurem abuso de poder econômico e captação ilícita de sufrágio. Especialistas em direito eleitoral ouvidos pela reportagem apontam que, caso fique comprovada a utilização de estruturas religiosas, recursos logísticos de igrejas ou a indução dolosa de eleitores sob falsas premissas, os organizadores e os candidatos beneficiados podem enfrentar graves sanções jurídicas, que vão desde multas pesadas até a cassação de registros ou diplomas eleitorais.
Nos bastidores das igrejas evangélicas amapaenses, o clima é de insatisfação profunda. Lideranças tradicionais argumentam que a instrumentalização da fé fragiliza a credibilidade das congregações e divide as comunidades de base, que passam a enxergar a pauta espiritual sob desconfiança. Para o cientista político e pesquisador das relações entre religião e política na Amazônia, Carlos Pontes Mendes e Silva, o episódio reflete uma estratégia nacional de capilarização de candidaturas conservadoras através de redes de apoio religioso. "Há uma tentativa calculada de ocupar espaços comunitários utilizando a capilaridade da fé. Quando isso é feito sem a transparência devida e enganando o cidadão sobre a natureza do ato, rompe-se o pacto de confiança com o fiel", analisa Mendes e Silva.
Enquanto a polêmica repercute nas redes sociais e movimenta os bastidores jurídicos locais, a sociedade civil e membros de diferentes denominações religiosas cobram explicações transparentes dos organizadores do evento sobre quem financiou a mudança logística e qual foi a real motivação por trás da guinada político-partidária da programação. Até o fechamento desta edição, os responsáveis diretos pela caravana e os parlamentares citados não haviam emitido uma nota oficial de esclarecimento detalhada sobre as acusações, enquanto o Ministério Público Eleitoral monitora os desdobramentos do caso para avaliar eventuais medidas cabíveis.

