É medo ou despreparo? Rayssa Furlan foge de todas as sabatinas nas rádios e TVs como o diabo foge da cruz
Rayssa Furlan está ficando conhecida como a "senadora mudinha" por faltar a diversas entrevistas
Por Redação
A menos de três semanas do primeiro domingo de votação, a candidata ao Senado pelo Podemos no Amapá, a ex-primeira-dama Rayssa Furlan, optou por transformar o sumiço em método eleitoral ao se recusar deliberadamente a participar de debates, sabatinas e entrevistas nas emissoras de rádio e televisão. A manobra evasiva, traçada a portas fechadas sob a batuta de seu marido — o ex-prefeito de Macapá e candidato ao governo Antônio Furlan (PSD) —, opera como um escudo calculado para blindar a aspirante a parlamentar de perguntas comprometedoras sobre as investigações da Polícia Federal que apontam o suposto envolvimento do casal no desvio de quase R$ 160 milhões das obras do Hospital Municipal de Macapá.
No teatro das campanhas contemporâneas, o silêncio costuma ser tão barulhento quanto os jingles que ecoam em volume ensurdecedor pelas esquinas da capital amapaense. Ao abdicar da arena pública do confronto de ideias, Rayssa não apenas frustra emissoras e eleitores, mas instaura uma dramaturgia da ausência. A cadeira vazia nos estúdios deixa de ser mero detalhe cenográfico para se transformar no símbolo involuntário de sua própria candidatura: uma presença que se quer etérea, medrosa, controlada pelas rédeas curtas das redes sociais, onde nenhum roteirista adversário ousa atravessar a fala ensaiada com perguntas desconfortáveis.
Faltando pouco mais de vinte dias para que o eleitorado defina quem ocupará uma das cadeiras mais cobiçadas da República, a candidata ainda não se dignou a justificar publicamente por que fechou a porta para o escrutínio da imprensa. A postura rompe com a praxe do debate democrático justo no momento em que a sociedade demanda respostas concretas para um mandato que dura quase uma década. Em vez do embate com os concorrentes ou da sabatina minuciosa diante de repórteres experientes, o público recebe o vazio, uma recusa obstinada que desumaniza o processo eleitoral e o reduz a um mero cálculo de contenção de danos patrimoniais e familiares.
Essa tática de fuga programada carrega a assinatura direta do marido, cuja biografia política recente fornece a chave de leitura para o retiro estratégico da esposa. Antônio Furlan foi afastado do comando da Prefeitura de Macapá no início de março por determinação expressa do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, sob a esteira de uma operação que investiga um esquema monumental de fraudes licitatórias, formação de quadrilha, peculato e malversação de verbas públicas. O enredo, que já seria corrosivo o bastante para um prefeito em fim de mandato, ganhou contornos de drama conjugal e penal quando as apurações colocaram Rayssa no mesmo raio de suspeição sobre o ralo bilionário que teria engolido o orçamento da saúde municipal.
Exposta à temperatura incandescente de um estúdio de transmissão ao vivo, a ex-primeira-dama correria o risco evidente de ver ruir a imagem lapidada para o horário eleitoral gratuito. Diante de microfones abertos, o roteiro milimetricamente construído pelos marqueteiros cederia espaço ao interrogatório implacável sobre notas fiscais, repasses federais e o destino dos leitos hospitalares que deveriam acolher a população mais vulnerável de Macapá. A fuga, desse modo, não decorre de mero desdém pela imprensa, mas de um pavor visceral do constrangimento de não ter o que responder quando os fatos se sobrepõem à retórica de palanque.
A crônica política da Região Norte, no entanto, guarda uma memória cruel com aqueles que decidem tratar o debate público como um embaraço dispensável. Nos bastidores de Macapá e nos comentários de analistas locais, o comportamento de Rayssa já resgata inevitavelmente o folclore eleitoral amazônico, evocando a célebre passagem do ex-governador do Pará Almir Gabriel. Quando disputou a prefeitura de Belém e optou pela mesma estratégia de desviar de sabatinas para não tropeçar nas próprias contradições, o falecido cacique da política paraense acabou batizado pela boca maldosa das ruas e da oposição com o codinome de “rato fujão” — um estigma que colou na pele como graxa e comprometeu para sempre a altivez de sua biografia.
Pelo ritmo do compasso atual, a candidata do Podemos caminha a passos largos para herdar a mesma pecha anedótica. No Amapá, onde o boca a boca corre com a velocidade das marés do rio Amazonas, a evasão sistemática já é lida não como prudência de quem lidera ou protege capital político, mas como confissão velada de fragilidade. Fugir do confronto sugere o medo do espelho e valida a suspeita de que a armadura do discurso não resiste ao peso de um inquérito policial que bate à porta do casal com a gravidade de dezenas de milhões de reais em jogo.
O custo dessa escolha recai, em última instância, sobre a própria cidadania. O Senado Federal, concebido como a câmara alta de representação dos estados e da moderação constitucional, exige mais do que cabos eleitorais submissos ou sobrenomes influentes; demanda estatura para encarar a controvérsia e capacidade de prestar contas à luz do dia. Ao sequestrar o direito do amapaense de ver suas ideias testadas contra o contraditório, a campanha de Furlan aposta na anestesia coletiva, na crença de que a omissão compensa mais do que a transparência.
Resta saber se a caricatura da postulante que foge como um "rato" dos microfones conseguirá cruzar a linha de chegada incólume ou se o silêncio custará o preço amargo da desconfiança popular. Em política, assim como no palco, o ator que se recusa a entrar em cena quando o pano sobe corre o risco de descobrir, tarde demais, que a plateia simplesmente cansou de esperar e decidiu aplaudir outro espetáculo.

