Fabrízio de Almeida Gonçalves, dono da Santa Rita Engenharia, é apontado pela Polícia Federal (PF) como operador de propinas na gestão Furlan
Saiba que é Fabrízio de Almeida Gonçalves e seu envolvimento no caso da propina na gestão do ex-prefeito de Macapá
Por Redação
No tabuleiro de xadrez que se tornou a política e a infraestrutura da Região Norte, o nome de Fabrizio de Almeida Gonçalves transita entre o prestígio das entidades de classe e o rigor dos inquéritos conduzidos pela Polícia Federal. Engenheiro e empresário, Gonçalves alcançou o topo da representação setorial como presidente do Sindicato da Indústria da Construção do Estado do Pará (Sinduscon-PA), com mandato previsto até 2026. No entanto, o currículo que ostenta a liderança de um dos setores mais pujantes da economia paraense agora divide espaço com as anotações detalhadas da Operação Paroxismo, deflagrada em Macapá para investigar um suposto duto de irregularidades entre a iniciativa privada e o poder público municipal.
Sócio-administrador da Santa Rita Engenharia Ltda, empresa com forte atuação em obras públicas, Fabrizio tornou-se peça central em uma investigação que apura o destino de verbas vultosas oriundas da Prefeitura de Macapá. Segundo o inquérito da PF, que ganhou contornos públicos através do blog de Fausto Macedo, no Estadão, o empresário e seu sócio, Rodrigo de Queiroz Moreira, teriam estabelecido um padrão de comportamento financeiro que acendeu os alertas dos órgãos de controle. O esquema, descrito por agentes federais como uma estratégia clássica de dissimulação, envolvia saques vultosos em espécie, realizados quase imediatamente após a Santa Rita receber pagamentos contratuais da gestão do ex-prefeito Antônio Furlan (PSD).
Os números que sustentam a suspeita da PF são expressivos e sugerem uma dinâmica de "caixa dois" ou devolução de valores. Entre janeiro de 2023 e setembro de 2024, a movimentação financeira da empresa sob o comando de Fabrizio Gonçalves registrou 17 saques que, somados, chegam à cifra de R$ 9,8 milhões. Desse total, a investigação aponta que cerca de R$ 2,46 milhões teriam seguido diretamente para as mãos de Fabrizio em um curto intervalo de tempo. Para a PF, a falta de comprovação de destino ou de finalidade comercial para o uso de tanto dinheiro "vivo" é um indicativo robusto de que os valores foram ocultados para irrigar interesses que a contabilidade oficial não poderia registrar.
O impacto da investigação sobre a imagem de Fabrizio Gonçalves é profundo, dado o seu papel institucional. Como presidente do Sinduscon-PA, ele deveria ser o fiador da ética e da transparência em um setor historicamente vigiado por operações de combate à corrupção. A Santa Rita Engenharia, sob seu comando, tornou-se uma das principais executoras de projetos de infraestrutura na capital amapaense durante a gestão Furlan, mas o que deveria ser um case de sucesso empresarial transformou-se em um emaranhado de transações sob suspeita. Além da engenharia, Fabrizio também figura como sócio na Santa Rita Incorporadora LTDA, ampliando seu raio de influência no mercado imobiliário e de construção civil.
O termo "Paroxismo", que batiza a operação deflagrada pela PF, refere-se ao ponto de maior intensidade de um processo ou de uma doença, uma metáfora utilizada pela PF para descrever o nível de saturação e ousadia que o esquema criminoso envolvendo Fabrizio Gonçalves, seus comparsas Rodrigo Moreira e o ex-prefeito de Macapá, Antônio Furlan, teria atingido. A tese central da PF é que o dinheiro público, ao entrar nas contas da Santa Rita Engenharia, passava por um processo de "limpeza" através dos saques na boca do caixa, dificultando o rastreamento por parte do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Essa técnica visa interromper a trilha documental do dinheiro, transformando ativos digitais e rastreáveis em cédulas físicas que podem ser distribuídas sem deixar vestígios óbvios.
Nos bastidores do setor de construção civil no Pará, a situação de Fabrizio é acompanhada com um misto de apreensão e silêncio. A entidade que ele representa lida com grandes interesses econômicos e contratos estatais, e a sombra da Operação Paroxismo projeta dúvidas sobre a lisura de outros processos em que suas empresas estejam envolvidas. A defesa do empresário tem mantido uma postura cautelar, mas o peso das evidências apresentadas no inquérito — que cruzam datas de depósitos da PMM na era Furlan com horários de saques bancários — impõe um desafio jurídico considerável.
Enquanto a PF avança na análise de materiais apreendidos e na quebra de sigilos bancários e fiscais, a trajetória de Fabrizio de Almeida Gonçalves serve como um lembrete das relações perigosas que podem se formar nos vãos entre os vistosos gabinetes de gestores corruptos e as sedes das grandes construtoras. O desfecho da investigação dirá se o empresário conseguirá manter sua posição de liderança ou se o "paroxismo" de sua atuação financeira selará o fim de sua influência no Norte do país. O Amapá e o Pará aguardam agora para saber se o dinheiro sacado em espécie voltará a aparecer na forma de provas ou se permanecerá perdido nos labirintos da ocultação de patrimônio pessoal.



