Prefeito Furlan aplica calote duplo: comissionados da PMM amargam salários atrasados enquanto famosos recebem fortunas
Por Redação
O ambiente nos corredores da Prefeitura de Macapá na primeira semana de fevereiro de 2026 é de uma tensão silenciosa e profunda indignação. O que deveria ser um período de planejamento e execução de metas para o novo ano transformou-se em um cenário de incerteza e desespero para mais de 3.000 servidores comissionados que compõem o quadro administrativo da capital. O anúncio, que se espalhou como um rastro de pólvora através de comunicados feitos pessoalmente pelos responsáveis de setores dentro das secretarias e autarquias, trouxe uma notícia que muitos classificam como um golpe nas economias domésticas.
Por determinação direta do prefeito Antônio Furlan (MDB), a gestão municipal não efetuará o pagamento de férias nem de quaisquer outros direitos constitucionais garantidos aos ocupantes de cargos em comissão pelos próximos seis meses. A justificativa oficial, que aponta para um suposto esvaziamento das contas bancárias da prefeitura, choca-se frontalmente com a ostentação de investimentos em eventos festivos, criando um abismo de desconfiança entre o funcionalismo e a cúpula do governo municipal.
Para centenas de pais e mães de família, a segunda-feira, 2 de fevereiro, começou com o peso de dívidas que não poderão ser honradas. O recurso das férias, que legalmente deveria servir como um fôlego financeiro, era a aposta de muitos servidores para quitar mensalidades escolares atrasadas, renovar matrículas ou simplesmente reorganizar o orçamento familiar após as despesas de início de ano.
O impacto psicológico nas repartições é visível; servidores que dedicam suas jornadas à operacionalização da máquina pública agora se veem desamparados por um ato administrativo que ignora premissas básicas da dignidade do trabalhador. O argumento de que "não há dinheiro em caixa" é recebido com ceticismo e revolta, especialmente quando se observa o Diário Oficial e as propagandas institucionais que, nas últimas duas semanas, têm bombardeado a população com o anúncio de uma festa de aniversário da cidade com proporções faraônicas.
A discrepância entre a alegada insolvência financeira e os gastos com entretenimento é o ponto central da crise. Enquanto o memorando do prefeito Antônio Furlan trava os direitos dos trabalhadores sob a alegação de cofres vazios, a Prefeitura de Macapá confirmou atrações nacionais cujos cachês somam cifras milionárias para o aniversário de Macapá, celebrado em 4 de fevereiro.
Fontes consultadas pelo poral REGIÃO NORTE NOTÍCIAS indicam que apenas a banda de pagode Sorriso Maroto, contratada para se apresentar na Praça Jacy Barata, deverá receber cerca de R$ 1 milhão pelo show. A este valor somam-se os R$ 750 mil destinados ao DJ Pedro Sampaio e os R$ 690 mil reservados para o cantor Zé Felipe. No cálculo rápido feito pelos servidores nos grupos de mensagens, o montante gasto com apenas três atrações nacionais seria suficiente para quitar uma parte considerável das pendências com os trabalhadores comissionados, o que levanta um questionamento ético e jurídico sobre a prioridade da gestão: a manutenção do direito de quem trabalha ou a manutenção da imagem política do prefeito gastador através de festas populares.
A crise, contudo, é mais profunda do que o não pagamento imediato de férias e benefícios. Um problema estrutural e potencialmente criminoso assombra o futuro previdenciário desses mais de três mil servidores. Por ocuparem cargos de livre nomeação e exoneração, os comissionados são obrigatoriamente vinculados ao Regime Geral de Previdência Social (RGPS), gerido pelo INSS, e não ao regime próprio dos servidores efetivos do município. A prefeitura tem o dever legal de descontar a contribuição previdenciária diretamente na folha de pagamento e repassá-la ao Governo Federal.
Entretanto, denúncias graves apontam que, durante os meses de outubro, novembro e dezembro de 2022, e todo o ano de 2023, a gestão Antônio Furlan realizou o desconto nos contracheques, mas não efetuou o repasse devido à Previdência Social. Essa prática, tipificada no Código Penal Brasileiro como apropriação indébita previdenciária, coloca o servidor em uma situação de vulnerabilidade extrema. Sem o repasse, o tempo de serviço não é contabilizado para a aposentadoria e, em casos de necessidade imediata, o funcionário pode ter negados benefícios vitais, como o auxílio-doença ou o salário-maternidade, pois no sistema do INSS ele consta como inadimplente.
Este cenário de irregularidades previdenciárias somado ao calote nas férias desenha um quadro de má gestão que a população de Macapá precisa observar com rigor. Ao longo dos últimos cinco anos e meio, a capital amapaense assistiu a um modelo de administração baseado em entregas visuais e eventos de massa, mas que agora parece revelar seus pés de barro. A "realidade paralela" apresentada nas redes sociais oficiais do prefeito, com canteiros de obras e sorrisos em palcos, esconde o drama de quem faz a prefeitura funcionar nos bastidores.
O silêncio da gestão Furlan sobre o destino do dinheiro descontado dos servidores e não repassado ao INSS é ensurdecedor e exige a intervenção imediata de órgãos de fiscalização, como o Ministério Público e o Tribunal de Contas, para que o patrimônio moral e financeiro dos trabalhadores não seja diluído em favor de projetos de poder pessoal e festividades de conveniência política como as patrocinadas com o suor do servidor comissionado da PMM.
A complexidade da situação do prefeito Antônio Furlan aumenta à medida que os servidores começam a se mobilizar. A sensação é de que o funcionalismo comissionado está sendo usado como variável de ajuste fiscal para cobrir rombos deixados por uma gestão que priorizou o espetáculo em detrimento da responsabilidade administrativa. O comunicado que suspende direitos é visto como um teste de resistência para uma categoria que, por natureza, possui pouca estabilidade, mas que agora se vê diante de um limite insustentável.
Acordar para a realidade do que ocorre na capital amapaense não é apenas uma necessidade dos servidores atingidos, mas um dever cidadão, pois o colapso do direito de um setor do funcionalismo é o prelúdio do colapso dos serviços públicos como um todo. A conta do aniversário da cidade de 2026 está sendo paga com o suor e o futuro previdenciário de milhares de famílias macapaenses, uma ironia cruel para uma gestão que se promove sob o signo do cuidado com as pessoas.



